terça-feira, 17 de julho de 2018

Desabafos de um moribundo saudável

Eu olhei para o espelho e não vi meu rosto
E o céu estava sem sol e sem lua
Beijei os seus lábios e não senti seu gosto
Me perdi na confusão solitária da rua

Eu senti meu sangue e não tinha calor
Eu olhei para seus olhos e não vi você
Eu olhei para minhas feridas e não senti mais dor
E ainda estou tentando entender

Eu olhei para a vida e morri mais uma vez
Tentei sonhar mas não consegui dormir
E no desespero que se fez
Foi no vazio em que me vi

E eu rasguei minha pele com as unhas
Na ânsia de ter outra chance de sentir
Mas quem me respondeu foi o vento
Dizendo apenas silêncio.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Violência

 Bildergebnis für demolição
Que toda mão se transforme em soco na cara
Que toda carícia arda em chamas
E como uma pedrada
Eu lhe invada

Que toda prece se torne ofensa
Que toda fleuma se torne reação
E que meu coração
Seja violência

Que todo medo se torne ímpeto
Que toda angústia se torne destruição
E morram os deuses raquíticos
Dos fracos de vontade

Porque a única verdade
É a espada, o sangue e o tapa na cara
E que eu te invada
Com violência

terça-feira, 19 de junho de 2018

Não seja um romântico


Para toda beleza seja um cego
Não beije, não queira, não ame
E nunca gaste seus versos
Com encantos venenosos

Adormeça os sentidos, os sentimentos
Castre ideias que entorpecem a razão
Apague o fogo, enxugue as lágrimas
Crave uma faca no peito da ilusão

Não leve flores a sepultura das memórias
Seja frio, um autêntico homem de gelo
E guarde esse meu conselho, não olhe para sua alma
Quebre todos os espelhos

Quem navega em mares além da lucidez
Encontra com o monstro mais atroz
Que te tortura e de vez em vez
Lembra que é você seu próprio algoz

Não seja um romântico, nem por um momento
Seja um homem de ferro, de barro e poder
Porque quem já um dia viveu de sentimento
Sabe bem que sentir é morrer.



sexta-feira, 15 de junho de 2018

Um Triste em um dia triste

Hoje eu amanheci tão cinza
Que não pude me ver no espelho
Escondi minhas lágrimas com tinta
E pintei minha solidão de vermelho

Meus lábios sorriam querendo gritar
Jogando pra baixo do tapete, o desespero
E de pensar que durante o dia inteiro
Ninguém percebeu o meu truque

Hoje eu amanheci tão amargo
Que não quis mais o seu beijo
Eu adocei meu café e tomei um trago
Sem gosto, sem face e sem desejo

Minha voz se repetia em minha mente
Palavras que eu não gosto de lembrar
Eu queria chorar, mas eu parecia contente
Não, eu não poderia borrar a maquiagem

Hoje eu amanheci tão frio
Que o vazio já fazia parte de mim
O abismo já era meu corpo
Eu olhei pra mim, no vazio
E percebi que já estou morto


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Egoísta


Egoísmo é escrever sobre a própria dor
Mas se sou gente, o que sou
Além de egoísta?

Cantar as mazelas, o amor perdido
As vezes soa tão bonito
Mas é mero egoísmo

E quantos, quantos não gastam as noites
A olhar para o próprio umbigo
E suspirar por desejos?

E o que é o amor,
 se não
Um ato violento de egoísmo?

O lirismo da próprio sangue, da própria carne
É mundano
Humano, demasiadamente, humano

Mas se sou gente, se sou ego
O que resta é minha sina
De ser egoísta

domingo, 6 de maio de 2018

Um breve poema sobre o cemitério

O que é o homem além das memórias
Que deixa em uma cova rasa
Ou um mausoléu de mármore carrara?

A vida que se leva, se leva no túmulo
Distingue o príncipe do escravo
A morte, quem diria, também conta os centavos

Quantas viúvas choram o indigente?
Quantas coroas tem um sepulcro caiado?
O jazigo número duzentos e oitenta e quatro
Não virará nome de rua neste século


terça-feira, 1 de maio de 2018

Confissões de Gonçalo, um mandrião de mão cheia.

Dediquei meus anos ao vinho
Tantos que a sarjeta é meu lar e meu abismo
Não me arrependo, mas eu sinto
Que não me cabe mais nas costas o carma de Dionísio

Brinquei com a vida e namorei a morte
Fumei cigarros, amei sem querer, fui jovem
Chorei e praguejei a minha sorte
De velar outros vadios que morreram de cirrose

Meus cabelos alvos contam que o tempo não é mais meu
Já não sou mais um amante libidinoso
Sou só lembranças, um velho, fraco, roto
Que vê que o seu mundo, já não mais seu

Eu queria apenas um último gole
Com os velhos companheiros de esbórnia
Dançar, sorrir, trepar, enquanto a morte
Me leve de porre para o nunca 

É, acho que estou meio sentimental hoje
Vou encher meu copo que passa.